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LITTERATURA E BELLAS-ARTES

ARTES E INDUSTRIAS METALLICAS EM PORTUGAL

Minas e mineiros

INTRODUCÇÃO

Os romanos foram eminentes na arte de extrahir minerio e da sua pericia nesta especialidade restam inequivocas provas em todo o solo da peninsula hispanica. As galerias, que elles perfuraram, são comtudo attribuidas aos sarracenos pela imaginação popular, que povôa ainda aquelles recintos subterraneos de lendas mysteriosas e de mouras encantadas. Feliz de quem possuir a varinha de condão, com que possa quebrar o seu encantamento! Os thesouros das Mil e uma noites não contêem maior somma de maravilhas.

Ha bastantes annos foi descoberto nas minas de Aljustrel um precioso monumento epigraphico, a celebrada tabula de bronze, em que se acham inscriptas, em lingua latina, algumas prescripções do direito romano sobre minas. Esta veneranda reliquia conserva-se actualmente no museu da Commissão Geologica, tendo sido estudada e descripta por A. Soromenho, Estacio da Veiga e outros sabios estrangeiros.

Na primeira metade do seculo xvi as minas de cobre de Aljustrel estavam sendo exploradas, pelo menos para a extracção do azul para a pintura. Francisco das Aves, pintor de Beja, tinha o encargo, por parte de D. Manuel, de afinador do azul, e Jorge Affonso, outrosim pintor, era quem tinha a incumbencia official de receber aquelle producto. Vejam-se estes dois nomes na minha Noticia sobre alguns pintores.

O territorio portuguez possue grandes riquezas mineraes, que não têem sido convenientemente aproveitadas, dando-se

importantes soluções de continuidade na sua exploração. Não se póde todavia negar que tanto o poder real como outras personagens importantes, empregaram sempre diligencias para fomentar esta industria.

Principes seculares e principes da egreja, como o infante D. João, os duques de Bragança, os bispos da Guarda e de Portalegre, alcançaram importantes concessões de minas. Uma das causas que mais contribuiram e contribuem ainda para o estagnamento da mineração, é a falta de combustivel. Os pinhaes e outras mattas são insufficientes para o consumo mais ordinario, sendo necessario importar todos os annos grande quantidade de madeiras de construcção. Se as nossas minas carboniferas fôssem mais abundantes, já por certo se teriam construido altos fornos proximo de Moncorvo para o lavramento do seu riquissimo jazigo de ferro. As ferrarias de Thomar gosaram sempre de fama, e ainda se trabalhou nellas até aos principios do seculo passado, mas hoje estão ao abandono. Na actualidade a mina mais importante e que funcciona activamente, é a de cobre em S. Domingos, proximo de Mertola. E' seu proprietario um inglez.

Por diversas vezes alguns dos nossos compatriotas foram ao estrangeiro aperfeiçoar-se no estudo e pratica da mineralogia. Entre elles Joaquim Pedro Fragoso de Siqueira, de quem possuo a seguinte obra:

Déscription abrégée de tous les travaux, tant d'Amalgamation, que des Fonderies qui sont actuellement en usage dans les ateliers d'Amalgamation e des Fonderies de Halsbrück, près de Freyberg. Pour servir de guide aux étrangers qui voudront visiter ces Etablissemens, et aux Jeunes-Gens qui voudront étudier cette Partie à Freyberg. Dédiée à son Altesse Royale le Sérénissime Prince du Brésil, Régent de Portugal, par Mr. J. P. Fragoso de Siqueira, Membre Ordinaire de l'Académie Royale des Sciences de Lisbonne, et Correspondant de la Société Economique de Leipsic. Avec deux Planches en taille-douce, concernant l'Amalgamation. Dresde, 1800.4.o, 99 pag., ms. 5, in. de index e errata. A dedicatoria é assignada de Freyberg, em Saxe, a 10 de janeiro de 1797. Nella diz que fôra nomeado por decreto de D. Maria I, de maio de 1790, para fazer uma viagem metallurgica na Europa.

A obra é em francez e allemão.

Innocencio da Silva incluiu no seu Diccionario o nome de

Fragoso de Siqueira, de quem regista diversas memorias publicadas entre as da nossa Academia. Não descreve nem viu a que cito, dizendo porém constar-lhe que escrevera outras memorias em francez e allemão. Dá-lhe mais um apellido, achando-se todo o nome por esta fórma no Diccionario: Joaquim Pedro Fragoso da Motta de Siqueira.

No catalogo da livraria dos condes de Linhares, vi descripto nos manuscriptos, sob o n.° 99, a seguinte obra de Antonio da Rocha Barbosa: Memorias das tres fabricas de ferro, do Prado, da Machuca e da Foz do Alge.

Este auctor não vem incluido no Diccionario Bibliographico. Existem bastantes monographias, artigos e catalogos, em que se trata das nossas riquezas metallurgicas, mas ainda está por escrever uma historia geral, empresa a que não ousaria abalançar-me por mais de um motivo, mas para a qual fornecerei alguns subsidios.

São numerosos os documentos ácerca de minas e mineiros, que se acham registados nas chancellarias reaes e dispersos por outras secções do Archivo Real. Tomei nota de muitos e copiei alguns dos que me pareceram mais importantes, e d'esses faço agora uso, dando-lhe uma tal ou qual distribuição methodica e precedendo-os de breves considerações. Sirvo-me da prata da casa sem me aproveitar de erudição estranha. Por esta pequena amostra se póde fazer idêa dos valores que ainda estão soterrados.

A historia da nossa metallurgia poderia simultaneamente tratar da parte scientifica e da parte technica, descrevendo a constituição geologica dos jazigos existentes e os processos que têem sido empregados na sua exploração. Esta phase evolutiva poderia dividir-se em tres grandes periodos, comprehendendo o primeiro os tempos prehistoricos. O segundo viria d'essa época até á fundação da monarchia, assignalando principalmente o dominio romano. O terceiro, finalmente, abrangeria a existencia politica de Portugal, desde o reinado de D. Affonso Henriques até aos nossos dias.

Tudo isto, já se vê, seria illustrado com mappas e estampas representativas do estado das minas, dos seus productos, utensilios e apparelhos empregados na extracção e preparo dos metaes.

Duas partes complementares seriam absolutamente indispensaveis. Uma d'ellas a synopse chronologica de toda a legislação mineira; a outra uma desenvolvida nota bibliographica de tudo o que se tem escripto e publicado em Portugal sobre o assumpto.

Mas agora reparo que estava ensinando o padre nosso ao vigario, eu, que affirmava não o saber, ou que não me atreveria a pronuncial-o quando o soubesse. D'esta contradicção me arrependo e penintenceio, pondo aqui ponto, para não cahir em outras.

I

Minas de ouro

A) Minas da Adiça. Thomaz Luis Lisuarte de Andrade, D. Mecia de Noronha, D. Martinho Castello Branco, João d'Affonseca e Antão d'Affonseca.

A pesquiza do ouro, tanto em minas como nas areias dos. rios, sobretudo nas do Tejo e Mondego, chegou a ter bastante importancia entre nós, mas hoje acha-se completamente abandonada. Ha coisa de vinte annos ainda se exploravam minas de antimonio a fim de extrahir d'elle algum ouro, mas a percentagem era tão diminuta que não dava para as despezas. Os descobrimentos maritimos, desviando a nossa actividade do solo patrio, fizeram com que ligassemos mais attenção ás ríquezas mineraes das colonias do que ás nossas proprias. João de Barros lastima este abandono e preferencia. Descrevendo as regiões banhadas por dois importantes rios africanos, diz o insigne chronista: «E não trazendo as areas destes dous notaueis rios Canagá e Gambea, tanto ouro como as do nosso Tejo e Mondego: está tão trocada a opinião dos homens, que menos estimão o que tem á cerca de si, que o que esperão per tantos perigos e trabalhos, como passão em o ir buscar a estes dous rios barbaros.» (1).

D. João III possuia um sceptro de ouro, para o qual dera o desenho Francisco de Hollanda, e cuja materia prima, segundo a tradição exarada em André de Resende, fôra extrahida das areias do Tejo. Esta tradição, porém, é destituida de fundamento, devendo prevalecer o testemunho de Hollanda, que assevera terminantemente que o precioso objecto fôra feito com uma barra de ouro tirada de uma mina descoberta por Ayres do Quental.

Ayres do Quental foi feitor-mór dos metaes nos reinados de Ď. Manuel e D. João III, e parece ter sido um dos portuguezes mais notaveis nesta especialidade. A mina que elle

(1) João de Barros, Decada primeira, liv. 3.o, cap. viii.

descobriu foi a do Rosmaninhal, na provincia da Beira, proximo da raia. Como Ayres do Quental tem sido considerado por alguns como architecto, por isso o inclui no 2.o volume do meu Diccionario dos architectos.

A mais importante mina de ouro existente em Portugal, tendo sido explorada durante seculos, e trabalhando-se ainda nella no seculo passado, é a da Adiça, na margem esquerda do Tejo, proximo da sua foz, e não longe de Almada. E' natural que os romanos a tivessem aproveitado e que os sectarios do Islam proseguissem nos mesmos trabalhos. A palavra Almada, segundo fr. João de Sousa, é de origem arabica, tendo o seu significado Castello da mina de ouro.

No dominio portuguez, a partir pelo menos do seculo xv, a mina chamou-se da Adiça e os seus operarios adiceiros, ouriveseiros ou ourives da Adiça. No livro 29, fl. 69 e seguintes da Chancellaria de D. Manuel, acha-se registado o caderno dos privilegios dos adiceiros, documento curiosissimo, que só de per si nos póde fornecer a historia d'esta industria. Ahi se acham incluidos outros diplomas, a série dos privilegios concedidos pelos reis anteriores até D. Affonso IV. Ahi se especificam muitas circumstancias curiosas e se mencionam os nomes de alguns dos mestres de tirar o ouro. D. Manuel confirmou todos estes privilegios, na sua cidade de Evora, a 2 de maio de 1497. Que estas minas davam rendimento de bastante importancia, prova-se não só pelo pessoal de fiscalização, como pelo tributo que pagavam ao rei, que então personificava o estado. A Adiça tinha um ouvidor, um alcaide e um escrivão, e todos os annos os adiceiros pagavam um certo numero de corôas de ouro.

Em 1480 D. Affonso V fez mercê d'este tributo a Lisuarte de Andrade, fidalgo de sua casa e veador-môr da artilheria, como quem diria hoje inspector geral. Antes d'elle recebia-o Thomaz Luis em pagamento de dez mil reaes de tença por anno. Foi por seu fallecimento que a mercê passou para Lisuarte de Andrade.

Lisuarte de Andrade obtivera licença para vender e trespassar estas corôas, e em 1488 contractava neste sentido com D. Mecia de Noronha, mulher de D. Martinho de Castello Branco, conselheiro e védor da fazenda de D. João II, que em carta de 30 de maio d'aquelle anno validou e confirmou a transacção. Não nos diz o documento o preço da venda.

D. Manuel confirmava tudo isto em carta passada em Estremoz a 18 de janeiro de 1497, e que se acha registada a fl. 73 verso do livro 27 da sua Chancellaria.

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