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Em Hajar al-Lahun (1) havia, segundo refere o mesmo Abu Salih (2), um mosteiro da invocação do santo martyr Isaac de Tiphre. O mosteiro era situado em um monte ao norte de al-Lahun e ao sul do Fayum, em um sitio chamado Barniyudah; era cercado de um triplo muro de pedra; a egreja principal do mosteiro, dedicada á Virgem Maria, era espaçosa e bem construida; e perto d'ella havia outra egreja, dedicada ao santo martyr Isaac de Tiphre.

(Continúa).

(1) Hajar al-Lahun (Pedra, Pyramide ou Ponte de Lahun), modernamente Illahun, é uma cidade que está situada perto do local, em que o canal Bahr-Jussuf entra no Fayum. (Quatremère, op. cit., I, p. 413-414; Amélineau, Geographie de l'Egypte a l'époque copte, p. 232; Baedker, Egypte, ed. 1898, p. 154).

(2) Abu Salih's Churches and Monasteries of Égypt, p. 210.

IMPRENSA DA UNIVERSIDADE

SCIENCIAS MORAES E SOCIAES

NOTAS D'UM PAE

(Cont. do n.o 4, pag. 201)

A bôa invenção dos carrinhos de creanças! E, lá por fóra, até a um simples operario já é dado realizar o sonho principesco de ter um para as suas. Com ellas dentro, que alegria! a familia póde transportar-se toda para o passeio. Pae e mãe não tem que deixá-las em casa com estranhos, separando-se d'ellas, ou que se separar um do outro, o pae condemnado a sahir só é a mãe a não sahir nunca. E' alegria e saude. A divisão domestica succede, com todo o seu encanto e com toda a sua moralidade, uma intima convivencia: o pae, que representa a força e a experiencia do mundo, atraz, a empurrar o carrinho, protegendo, ouvindo e explicando tudo; ao lado, enamorada do marido e dos filhos e revendo-se no mais novo, que ali vai naquelle berço ambulante, a falar-lhe, a dar-lhe a mão, a sorrir-lhe, a figura do amor e da graça, a mãe; e, na frente, os traquinas dos filhos mais crescidos, que correm pelos campos para colher flôres e voltam a correr para as deitar ao irmãosito, e querem, de vez em quando, puxar tambem pelo carrinho e brincam e tagarelam com o pequerrucho, como quem já sabe que lhes cumpre logo desde a infancia ir aligeirando os encargos e os cuidados dos paes. Positivamente não é só a creança que vai de carrinho, vai a familia toda; e póde passar a mais luxuosa equipagem, que não lhes meterá nenhuma inveja.

Um coração de patriota. O Dino: «Papá, que maçada! A ultima dynastia começa o primeiro reinado por entregar aos inglêses Ceuta e Ceylão, e logo no segundo lhes dá Tanger e Bombaim!!! Ah! bom estudante, que não decóra só a VOL. 50.o, N.o 5. MAIO DE 1903.

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historia, que a sente, que soffre já com ella! Que maçada d'espoliações e vexames, effectivamente, meu filho!

'Brincando os meus filhos ás sortes com uns papelinhos, onde tinham escripto, d'um lado, ao canto, o nome de cada um, e, do outro lado, no centro, o que lhe havia d'acontecer, o Dino appareceu-me todo enthusiasmado, porque lhe sahiu este horoscopio: Tomar Bombaim aos inglêses. Nada menos! Programma infantil, dir-se-ha. Sim, infelizmente, porque com os dirigentes adultos nem para a minima revindicação do brio nacional se póde contar. Confiemos nas novas gerações, no futuro!

Os dois sexos. A Gigi, de cabeça metida dentro d'um sacco, leva adeante de si os irmãos mais pequenos; mas, emquanto a romanesca Zirinha treme feminilmente, o Ignacio, impavido realista, no alegre alvorôço d'uma imaginação varonil que se não desvaira, corre, ás recúas, para melhor gosar da scena, e é, a rir, que se me apega e'enrola ás pernas, gritando como num tablado: «Papão!»

Gigi, commovida, communica-me: «Papá, a Elisa não veiu para fazer as compras: está de cama. Não póde com dores, coitada! e o filho, no meio do quarto, a chorar!» E, como as lagrimas lhe saltem irreprimivelmente dos olhos, confessa, num certo enleio: «Eu, assim que ouvi dizer isto, logo comecei tambem a chorar. Porque ella é muito boa para a gente: traz sempre lá de fóra tudo que se lhe pede.» Franco reconhecimento infantil.

A Gigi, no dia anniversario de minha mulher, com uma abada de flôres. Para que são? «Para enfeitar a cadeira da mama.» Um throno de rainha. Em verdade, ninguem mais legitimamente o occuparia, pelo direito da virtude e bondade.

Olhem á alimentação das creanças. Ellas não devem logo tomar alimentos solidos, até porque os engolem sem mastigar. Lembrem-se de que as primeiras emoções são as organicas. Ainda se vêem até adolescentes que, pelo prazer de digerir, atiram avidamente com a comida para dentro, do estomago sem quasi a saborear na bôca.

A educação da classe rica. Um capitalista, cuja esposa se achava enferma, de cama, ralhava deante de mim com o filho:

«Então sahiste a passeio, quando o medico chegou para tratar tua mãe?» Justificação do filho: «Tinham lá tanta gente!» Aqui está para o que serve a riqueza: para os paes, nas suas doenças e afflcções, terem ao pé de si toda a gente, menos os filhos; e para os filhos, nesses lances, poderem fazer tudo, até divertir-se, sem ter que pensar nos paes.

A Gigi, muito admirada da minha falta de rigor d'expressão. Como eu me demorasse fóra de casa, ella, já saudosa, apresentou a sua queixa á mãe: «Então, como é isto? o papá, quando sahiu, disse-me-Até já! Até já! —; e ha tanto tempo e elle sem vir!» Justa reclamação. Lá me desculpei depois como pude. Mas a verdade é que, a desmentirmos pelos nossos actos o sentido das palavras que trocamos com as creanças, como hão de as pobresitas ir aprendendo a sua lingua? Até para lh'a ensinarem, os paes e os mestres necessitam de proceder sempre lealmente. E nenhuma infidelidade lexicologica perturba como as que proveem da infidelidade do coração. Por isso se doia tanto à Gigi.

Tantas raparigas ricas sem nada que fazer! Mas porque, se lhes não falta nada? Ai! não lhes falta que comer e vestir, mas falta-lhes a instrucção, a capacidade de fazer seja o que fôr. A não ser rezar, não sabem nada. Sabem ler, é certo; mas se nem um bom livro encontram á mão para aprender alguma coisa! São ricas? Não! que a sua ignorancia é ainda pobreza. E, como não tem que fazer, nem pensam em nada, a ociosidade entrega-as facilmente as prêsas da sedução.

Se é preciso ou não os homens independentes e_desinteressados fundarem um novo partido liberal em Portugal, que não pugne por pessoas, por nenhum poderoso, mas pela patria e pelos seus filhos desvalidos! Basta notar a incompatibilidade dos nossos dirigentes, desde os mais retrogrados até os mais avançados, com quem quer que se não reduza a seu consectario, associando se ás suas ambições de prepotencia e exclusivismo.

Chega-se tão cedo aos altos postos em Portugal! Pois, para bem governar a nação, é preciso ter vivido, é preciso ter pelo menos feito já o governo domestico dos filhos. Um estadista inclinado ao despotismo lamentou-se-me um dia dos extremos com que a esposa queria ao filho, que ella apertava demais nos braços, não o deixando crescer livremente por si,

formar a sua vontade, fazer-se homem. Que tyrannia! E eu então observei-lhe: Applique a doutrina á nação.

Não se habituem as creanças a fazer o mal por brincadeira. Deixando-as cultivar e desenvolver a imaginação do disparate e da grosseria, não ha depois incommodo e arrelia que ellas não inventem pela vida adeante.

Não dêem nada para as mãos d'um grosseiro: estraga e parte tudo

A poesia é uma maneira delicada de rir e de chorar, sobretudo de chorar. Por isso ella é tão nossa, tão popular entre nós.

Que grande nação a pequena Suissa! Já ali vivem fraternalmente o italiano, o francês e o allemão, que fóra se digladiam. Até por isso lhe cabe a arbitragem dos povos.

Março. Arauto da primavera. A Gigi, ainda com o braço esquerdo ao peito, mas já sem se lembrar da má arvore d'onde cahiu, sacode pelo ar o incenso d'um verde ramo de loureiro, todo cravejado d'oiro: «Papá, tudo cheio de flôres, os loureiros, os pecegueiros, os damasqueiros, as ameixoeiras... Venha ver!» Effectivamente é uma explosão de côres e um deslumbramento da vista. Mas que pena que tão lindas flôres emurcheçam e caiam, e que a natureza, como ainda até tantos homens, para fructificar tenha de se desflorir!

Como é facil educar as raparigas! De mangas arregaçadas, com um grosso avental adeante de si, a Quina vem buscar agua ao meu quarto, explicando: «Estamos a esfregar todas, eu e a Maria a sala de visitas, a Manoela e a Rita o salão.» E as suas faces e os seus olhos incendeiam-se e fulgem de

contentamento.

Mas os rapazes? Emquanto pequenos, lá se vão tambem occupando, fazendo até muito gosto em prestar serviços, e não prestam poucos, sobretudo em tomar conta dos irmãositos e entretê-los. Aqui está agora tamborilando á minha vidraça, em grande alacridade, o rubicundo Ignacio, que o Dino, com elle de brincadeira no jardim, levantou ao ar para me fazer a surpreza. E o caso é que assim o encanta a elle e a mim. Mas, depois, quando já grandinhos, que as aulas lhes tiram o tempo todo? Que vida, da mesa de jantar para a mesa d'estudo! E' consumir, consumir, sem nada fazer pelos outros. Que ensino e que educação!

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