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O Martyrio do abba Isaac de Tiphre existe escripto em copto memphitico; no fim da hagiographia declara-se que ella foi composta por Christophoros, parente do martyr, que o acompanhou em todos os seus soffrimentos, e assistiu ás suas torturas e á sua morte. Esta affirmação não é provavelmente senão um artificio litterario, destinado a captar a credulidade dos leitores e dos ouvintes. E como no fim da hagiographia são manifestas as intenções do auctor em querer dar maior importancia á pequena aldeia de Tiphre, e augmentar a devoção dos fieis pelo culto do santo, cujas reliquias se dizia guardarem-se na egreja da mesma aldeia, isto é, a hagiographia tem por fim justificar certas pretenções locaes, é de presumir, que esta hagiographia tenha sido composta, sem duvida desenvolvendo antigas tradições, por algum piedoso presbytero, que tinha a seu cargo a egreja de Tiphre.

O abba Isaac de Tiphre é mencionado em outra obra coptica, além da sua hagiographia; no Martyrio do abba Apater e de sua irmã Hrai conta-se, que, quando este martyr foi levado para o carcere de Antinôou por ordem do governador (ê gemôn) Ariano, encontrou alli, entre muitos outros christãos, o abba Isaac de Tiphre (1).

Como é sabido, quasi todas as obras compostas em copto, que chegaram até nós, existem em lamentavel estado fragmentar; mas por uma rara excepção ha duas copias completas do texto coptico do Martyrio do abba Isaac de Tiphre, uma em um manuscripto da Bibliotheca do Vaticano, e outra em um manuscripto pertencente a Lord Zouche.

O manuscripto da Bibliotheca do Vaticano (Cod. Vat. Copt. LXVI) é um codice em folio de pergaminho, de 313 folhas, que foi trazido do Egypto para a mesma Bibliotheca por Joseph Simon Assemani. O Martyrio do abba Isaac de Tiphre está nas fol. 30 a 95. Na subscripção declara-se que esta copia foi feita no anno de 641 dos Martyres (925 de J. C.) por um certo Theodoro para o abba Abraham e seus filhos espirituaes, e que estes a offereceram ao Mosteiro de S. Macario em Sceté, no tempo em que Cosmas era Patriarcha de Ale

Transactions of the Society of Biblical Archeology, vol. ix, London, 1887, p. 74 e 75.

(1) Hyvernat, Les Actes des Martyrs de l'Égypte, Paris, 1886, p. 99

€ 109.

xandria. Este Cosmas foi o LVI Patriarcha de Alexandria, e falleceu no anno de 933 de J. C., tendo occupado a cadeira patriarchal durante doze annos (1). D'esta copia publicou alguns extractos o P. Georgi (2) e outros Zoega (3).

O manuscripto pertencente a Lord Zouche é um codice de pergaminho. O Martyrio do abba Isaac de Tiphre está nas fol. 152 a 201. Na subscripção declara-se que esta copia foi offerecida á egreja de S. Elias por um certo abba Stauros, monge do mosteiro do abba João de Timanxopi-Pehôout, do qual era monge o escrevente, no anno de 915 da era dos Martyres (1119 de J. C.), sendo Patriarcha de Alexandria o abba João (4).

O texto d'esta copia foi publicado por Budge (5).

Do Martyrio do abba Isaac de Tiphre existe uma versão arabica, que é contida nos dois seguintes manuscriptos da Bibliotheca Nacional de Paris (6):

1. Ms. arab. anciens fonds 153: codice de papel de 206 folhas de 0,215 xom, 160, escripto no seculo xv. O Martyrio do abba Isaac, natural de Difra, na diocese de Bana, está nas folhas 177 a 188.

2. Ms. arab. supplement 92: codice de papel de 129 folhas de om,215 x 0,150, escripto no anno de 1594 de J. C. O Martyrio do abba Isaac de Difra está nas folhas 11 a 33.

Do Martyrio do abba Isaac de Tiphre existe uma versão ethiopica, em geez, da qual se conhece uma unica copia, que é contida no manuscripto n.o 179 da collecção de A. d'Abbadie (7).

Este manuscripto é um codice de pergaminho de 258 folhas, tendo o",47 de altura e om,41 de largura. O Martyrio

(1) Scriptorum veterum nova collectio e vaticanis codicibus edita ab Angelo Maio, Romae, 1831, t. v, pars п, p. 161-162.

(2) De Miraculis sancti Coluthi et reliquiis actorum sancti Panesniv Martyrum, edit. F. A. A. Georgii, Romae, 1793, p. 33, 36, 88, 100, 144, 146. (3) G. Zoega, Catalogus Codicum Copticorum manu scriptorum, Romae, 1810, p. 20.

(4) Budge, The Martyrdom of Isaac of Tiphre, nas T. S. B. A., vol.

IX, P. 74 e 91.

(5) Budge, op. cit., p. 92-111.

(6) De Slane, Catalogue des manuscrits arabes de la Bibliothèque Nationale de Paris, p. 72 e 73.

(7) A. d'Abbadie, Catalogue raisonné de manuscrits éthiopiens, Paris, 1859, p. 183.

do abba Isaac de Tiphre está nas folhas 103 à 107. Nesta parte do manuscripto as paginas são escriptas em tres columnas de 34 linhas, e cada linha tem 12 letras em media nas columnas 103 1, 2, 3, 104 reve 105 r 1, 2, e 9 letras em media nas restantes. A escripta é larga e antiga, provavelmente do fim do seculo xv.

No fim da versão ethiopica diz-se que esta versão foi feita do arabe em geez pelo abba Salamâ. A primeira affirmação é sem duvida verdadeira; com effeito não só a fórma ethiopica da maior parte dos nomes proprios de pessoas e dos nomes geographicos se explica perfeitamente pela fórma que os mesmos nomes tem em arabe, mas ainda o emprego de certas preposições depois de alguns verbos indica que o traductor abexim tinha deante de si um texto arabico ou que fallava a lingua arabica, que algumas vezes imitou na construcção syntactica. A segunda affirmação é provavelmente tambem verdadeira; resta agora investigar quem era o personagem, a que é attribuida a versão ethiopica do Martyrio do abba Isaac de Tiphre, e em que epocha viveu.

Na Synaxaria ethiopica, no dia 20 de nahasê, faz-se a commemoração do fallecimento do abba Salamâ, bispo (papas) de Ethiopia; no fim do artigo correspondente lê-se a seguinte estrophe:

Salve, abba Salamâ, traductor do livro !

que, suavisando-o, o explicou do arabe em geez;
papas de Ethiopia, e illuminou as suas provincias,
e a sellou por sua mão pelo Espirito Santo.

Em uma obra da litteratura ethiopica, que tem por titulo: Veddasê samâyaviyân vamedrâviyân, Encomio dos celestes e dos terrestres, constituida por uma serie de estrophes em louvor de cada um dos santos nomeados no calendario ethiopico, lê-se no dia 20 de nahasê a seguinte estrophe:

Salve, raiz da arvore da Fé!

Por ti se diffundiram os mandamentos da Lei e do Evangelho;
Salamâ! eis que a tua lembrança persiste entre nós ;

pelos teus labios suaves, mais do que a myrrha e o aloes,

do arabe em geez os livros fôram trasladados.

Ludolf, que publicou e traduziu aquellas estrophes (1),

(1) Ludolf, Commentarius ad suam Historiam aethiopicam, Francofurti, 1699, p. 295.

apesar de ter reconhecido, que a versão ethiopica tanto do Velho como do Novo Testamento não foi feita do arabe mas do grego, julgou muito verisimil, que pelas palavras mashaf (livro) e masâ heft (livros), que se leem nas mesmas estrophes, se designem os livros por excellencia, isto é, os Livros Sagrados, como em grego são designados pelo nome de Biblia (livros); mas não explica o sentido que deve attribuir-se ás expressões - traductor dos livros que se lê nas estrophes.

Na lista dos bispos (pâp âsâ t) de Ethiopia, contida no ms. eth. 107 da Bibliotheca Nacional de Paris (1) e nos manuscriptos orient. 812 e orient. 769 do Museu Britannico (2), é mencionado um bispo abba Salamâ pelas seguintes palavras: XIV, Salamâ segundo, traductor de livros (mas â heft), o qual foi sepultado em Hâqâlêt. Zotenberg (3), Conti Rossiní (4) e Guidi (5) traduziram a palavra mas a heft no sentido restricto de Livros (Santos), isto é, da Biblia; e Conti Rossini e Guidi julgam que o abba Salamâ não foi o auctor da antiga versão ethiopica da Biblia, mas que reviu e corrigiu a antiga versão pondo-a de accordo com a versão arabica, que no tempo do mesmo bispo gosava de grande auctoridade na egreja de Alexandria, da qual depende a de Ethiopia. E muito provavel que assim fosse; mas parece que a actividade litteraria do bispo abba Salamâ não se limitou áquelle trabalho, mas se estendeu a outros livros ecclesiasticos, porque lhe é attribuida a versão do arabe em geez de outras muitas obras da litteratura ethiopica, como são o Filkesyus, a homilia de Cyriaco de Behnasa, e a Gadla abba Nob, a Gadla abba Karazun, a Gadla Ystos, Aboli va-Tavaklya, e emfim o Martyrio do abba Isaac de Tiphre.

Este abba Salamâ foi bispo de Ethiopia verisimilmente no tempo do rei Yagbea Seyon (1285-1293 de J. C) (6), e na lista dos bispos atraz indicada diz-se que foi sepultado em Hâqâlêt.

(1) Zotenberg, Catalogue des manuscrits éthiopiens de la Bibliothèque National, Paris, 1877, p. 263.

(2) W. Wright, Catalogue of the Ethiopic manuscripts in the British Museum, London, 1887, p. 291 e 320.

(3) Zotenberg, op. cit., p. 263.

(4) Conti Rossini, Sulla versione e sulla revisione delle sacre Scritture in ethiopico, na Zeitschrift für Assyriologie, 1895, p. 236–241.

(5) 1. Guidi, Le liste dei metropoliti d'Abissinia, Roma, 1899, p. 2 e 8. (6) Conti Rossini, op. cit., p. 238.

Do que precede, resulta que a versão ethiopica do Martyrio do abba Isaac de Tiphre foi feita da versão arabica pelo abba Salamâ, bispo de Ethiopia, no fim do seculo xii.

Comparando a versão ethiopica com o texto coptico do Martyrio do abba Isaac de Tiphre, observa-se que aquella segue muito de perto e com grande exactidão a este, o que indica que era muito litteral a versão arabica de que se serviu o traductor abexim, se por ventura elle, fallando o arabe e comprehendendo o copto, se não serviu do texto original coptico.

A versão ethiopica do Martyrio do abba Isaac de Tiphre é, apesar de alguns arabismos, um bello texto geez, no qual não se encontram ainda palavras ou phrases das linguas modernas de Ethiopia.

Na Synaxaria coptica, escripta em arabe, no dia 6 de paxons, faz-se a commemoração do abba Isaac de Tiphre; os Coptos cognominaram este santo com o nome de olho vasado. Entre outros tormentos conta-se, que lhe cravaram na cabeça pregos de ferro aquecidos ao rubro (1).

Na Synaxaria ethiopica, no dia 6 de genbot, faz-sa a commemoração do fallecimento do abba Isaac de Tiphre; o artigo correspondente é a traducção do artigo da Synaxaria coptica (2).

Os Coptos incluiram o martyr abba Isaac de Tiphre em o numero dos seus santos, e o veneravam com ferveroso culto, e levantaram egrejas dedicadas ao seu nome.

Segundo refere Abu Salih (3), as reliquias do corpo do santo martyr Isaac de Tiphre eram guardadas em uma egreja da cidade de Al-Kais, ou Dafu (4).

(1) Ludof, Commentarius ad suam Historiam aethiopicam, p. 415 e nota q; Scriptorum veterum nova collectio e vaticanis codicibus edita ab Angelo Maio, t. IV; Codices arabici, p. 114.

(2) Dillmann, Catalogus Cod. Mss. Bibliothecae Bodleianae Oxoniensis, pars vi; Codices aethiopici, Oxonii, 1848, p. 59; Zotenberg, Catalogue des manuscrits éthiopiens de la Bibliothèque Nationale, p. 183.

(3) Abu Salih's Churches and Monasteries of Egypt, ed. Evetts, Oxford, 1895, p. 253.

(4) A cidade de Al-Kais ou Dafu existe ainda hoje, e é situada na margem direita do Nilo e a dois kilometros no interior das terras, em frente da antiga Lycopolis, no districto de Beni-Mazar, na provincia de Minyeh. (Quatremère, Mémoires géographiques et historiques sur l'Egypte, Paris, 1810, 1, p. 141-144; Baedker, Egypte, ed. 1898, p. 181).

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